Doença celíaca: o alerta sobre os 2 milhões de brasileiros afetados

Doença celíaca: o alerta sobre os 2 milhões de brasileiros afetados

Imagine viver com uma condição invisível que transforma um simples pão em uma ameaça silenciosa à sua saúde. É exatamente isso que acontece com cerca de dois milhões de brasileiros diagnosticados ou suspeitos de ter doença celíaca. O número saltou para a manchete recentemente através do quadro "Você e o Doutor", no programa Hoje em Dia, da Record TV. Mas por que esse tema está ganhando tanto destaque agora? A resposta curta é: porque muita gente ainda se autodiagnostica erradamente.

A reportagem, veiculada em maio de 2026 pelo portal Record R7, trouxe à tona uma realidade complexa. Não se trata apenas de "não comer glúten". Trata-se de uma reação imunológica séria que ataca o próprio organismo quando exposto ao trigo, cevada e centeio. E aqui está o problema: muitos estão cortando esses alimentos sem saber se realmente precisam, mascarando sintomas e dificultando diagnósticos futuros.

O erro perigoso da dieta sem diagnóstico

Esse foi o ponto central levantado pelo gastroenterologista Mauro Bonato, especialista reconhecido na área. Em entrevistas recentes, ele alertou para o que chama de "tarja vermelha": iniciar uma dieta isenta de glúten antes de passar pelos exames médicos adequados. "Não pare de comer o grupo [de cereais] sem ter certeza se você é celíaco, sensível ou alérgico", afirma o doutor. Por quê? Porque os testes diagnósticos dependem da presença de glúten no corpo para detectar anticorpos específicos. Se você já eliminou o glúten há meses, o exame pode dar negativo mesmo que você tenha a doença.

Bonato faz uma distinção crucial que poucos entendem. Existem três condições diferentes:

  • Doença Celíaca: Uma doença autoimune grave. O sistema imunológico ataca a parede intestinal. Aqui, zero tolerância. Nem migalhas de contaminação cruzada são permitidas.
  • Alergia ao Trigo: Uma resposta alérgica imediata (como espirros, coceira ou choque anafilático). Diferente da celíaca, não destrói o intestino, mas exige evitar o trigo.
  • Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca: Sintomas reais (inchaço, fadiga), mas sem dano intestinal nem autoimunidade. Alguns pacientes podem tolerar pequenas quantidades ocasionalmente.

Misturar essas categorias leva a dietas restritivas desnecessárias ou, pior, a negligência de tratamentos sérios. Como bem pontuou Bonato: "Se for celíaco, não pode comer nada nem contaminar. Se for alérgico, a exposição é eventual. Se for sensibilidade, pode comer eventualmente".

Um histórico de subdiagnóstico no Brasil

Não é novidade que a doença celíaca é um mistério para muitos. Já em 2013, o portal G1 da Rede Globo publicava matéria intitulada "Doença celíaca ainda é pouco conhecida e subdiagnosticada". Anos depois, a revista Veja reforçava que especialistas consideram a enfermidade "frequente e desconhecida". Essa lacuna entre a prevalência real e o conhecimento público é preocupante.

O Ministério da Saúde brasileiro reconhece a gravidade do cenário. A entidade mantém páginas dedicadas à orientação sobre a doença e tem investido na capacitação profissional. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo, promoveu cursos online em 2023 especificamente para educar profissionais de saúde sobre como lidar com pacientes celíacos. Ainda assim, a Agência Brasil reportou recentemente que a doença pode se manifestar em qualquer idade, desde bebês até idosos, o que complica ainda mais a identificação precoce.

Quem deve procurar ajuda?

Quem deve procurar ajuda?

Os sintomas variam enormemente. Enquanto crianças podem apresentar desnutrição, atraso no crescimento e diarreia crônica, adultos muitas vezes sofrem com anemia inexplicável, osteoporose, cansaço extremo ou problemas de fertilidade. Às vezes, não há sintomas digestivos óbvios. É essa diversidade clínica que torna o diagnóstico tão difícil.

O médico Antonio Sproesser, outro especialista convidado pelo quadro "Você e o Doutor" em 2024, detalhou as causas, fatores de risco e tratamentos, enfatizando a necessidade de acompanhamento multidisciplinar. Não basta mudar a dieta; é preciso monitorar a saúde intestinal a longo prazo para prevenir complicações graves, como certos tipos de câncer intestinal, associados à doença não tratada.

O que esperar do futuro?

O que esperar do futuro?

Com a crescente conscientização midiática, impulsionada por programas como o da Record TV e canais especializados como o do Dr. Fernando Lemos, espera-se um aumento nos diagnósticos corretos. No entanto, o desafio permanece: educar a população para não seguir modismos alimentares sem base científica. A tendência é que órgãos reguladores fortaleçam as regras de rotulagem e que hospitais ampliem seus serviços de gastroenterologia preventiva.

Frequently Asked Questions

Posso fazer dieta sem glúten sem ser celíaco?

Sim, qualquer pessoa pode escolher não consumir glúten. No entanto, especialistas como o Dr. Mauro Bonato alertam que você deve obter um diagnóstico médico primeiro. Eliminar o glúten antes dos exames pode mascarar a doença celíaca, tornando impossível confirmar o diagnóstico posteriormente. Além disso, dietas restritivas sem necessidade podem levar a deficiências nutricionais se não forem bem planejadas.

Qual a diferença entre doença celíaca e alergia ao trigo?

São condições distintas. A doença celíaca é autoimune: o sistema imunológico ataca o intestino delgado ao ingerir glúten, causando danos permanentes se não tratada. A alergia ao trigo é uma reação alérgica imediata do sistema imunológico às proteínas do trigo, podendo causar desde coceira até reações graves como anafilaxia. A sensibilidade ao glúten não celíaca causa sintomas semelhantes aos da celíaca, mas sem dano intestinal comprovado.

A aveia contém glúten?

Naturalmente, a aveia não contém glúten. Porém, ela é frequentemente processada nas mesmas instalações que trigo, cevada e centeio, levando à contaminação cruzada. Para celíacos, é essencial consumir apenas aveia certificada como "sem glúten". Especialistas recomendam cautela extrema, pois mesmo traços mínimos de glúten podem desencadear a resposta imunológica em pacientes celíacos.

Como é feito o diagnóstico correto?

O diagnóstico começa com exames de sangue que buscam anticorpos específicos contra o tecido transglutaminase tecidual (tTG-IgA). Se os resultados forem positivos, geralmente segue-se uma biópsia do intestino deligo durante uma endoscopia para confirmar o dano intestinal. É fundamental que o paciente esteja consumindo glúten regularmente antes desses testes, caso contrário, os resultados podem ser falsamente negativos.

A doença celíaca pode aparecer em adultos?

Sim, a doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade, incluindo a terceira idade. Muitas pessoas vivem décadas sem saber que têm a condição, desenvolvendo complicações como anemia ferropriva resistente, osteoporose ou infertilidade. O alerta recente da Agência Brasil reforça que a ausência de sintomas digestivos clássicos em adultos não descarta a possibilidade da doença.


Alessandro Machado

Alessandro Machado

Sou um jornalista especializado em notícias e adoro escrever sobre assuntos relacionados ao cotidiano brasileiro. Minha paixão é informar e engajar a audiência com conteúdo relevante e atual. Trabalho para trazer ao público histórias que importam em suas vidas diárias. Além de escrever, gosto de explorar novos locais e conhecer pessoas interessantes.


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